sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Como será a vida sem o Museu Nacional?


 (Texto publicado no jornal "Expresso", em Lisboa, em 14/9/2018)

Renato Lessa

Uma catástrofe abateu-se sobre todos nós. Supressão de uma parte do mundo, para gerações que viveram numa paisagem na qual o Museu Nacional ocupava lugar natural e saliente. Não é o caso de proceder a biografismos, mas não posso evitar a lembrança de, ainda miúdo, ter acompanhado algumas aulas de meu pai - catedrático adjunto de História Natural e Biogeografia da então Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil (depois Universidade Federal do Rio de Janeiro) -, há mais de meio século, em meio a fósseis e coleções botânicas e zoológicas, em meio a visitas ao Museu, com seus estudantes.

Desde então o Museu Nacional compôs a linha do horizonte, pelo lugar da Antropologia Social - que lá tinha o principal programa de ensino de Pós-Graduação e Pesquisa da América Latina -  no quadro intelectual da geração de cientistas sociais, no Rio de Janeiro, formados nos idos dos anos 1970. E em medida mais directa, pela influência pessoal que recebi do saudoso e invulgar professor Luis de Castro Faria (um dos fundadores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – PPGAS e), a quem dediquei minha dissertação de mestrado e o livro que dela resultou.

A imagem do museu a arder, na noite de domingo gerou de imediato incontida dor e perplexidade diante da inclemente evidência de passados incinerados e de futuros suprimidos. No fim da noite, consegui falar ao telemóvel com Luiz Fernando Dias Duarte, um dos mais brilhantes antropólogos brasileiros e ex-diretor do Museu, e sobreveio a segunda camada de dor. Uma dor em fragmentos:  as tragédias moram nos detalhes, nos incontáveis meandros das vidas directamente afectadas: trajectórias, expectativas, rotinas suprimidas; devastação nas vidas pessoais e profissionais de centenas de professores, pesquisadores e estudantes. Quantos projectos terão sido interrompidos, e para sempre? Impossível mensurar a escala das reverberações: seus efeitos far-se-ão sentir por imenso tempo, ao menos para os que tiverem olhos e escuta para o que não virá a ser.

Na manhã a seguir ao incêndio não pude evitar o dever e o movimento natural da alma. Fui ter à Quinta da Boa Vista, e foi como estar na noite de velas de um grande amigo ou de um parente essencial, cuja ausência perene e irrecorrível afecta e desorienta a forma de vida dos que por cá ficam.  Afecta-nos não apenas no modo da negatividade, fixado na falta e na saudade, mas pelo sentimento de eliminação de futuros possíveis: como mensurá-los?

Lá estavam as paredes externas do prédio, dignas e austeras como sempre, com as estátuas da cobertura encomendadas por Pedro II intactas, tal como o anjo que sobreviveu ao bombardeamento de Dresden. Fachada como casca,  a envolver em acto de proteção absurda e pungente os efeitos da combustão impiedosa do interior do prédio: o conjunto do acervo sob a forma final de uma grande e homogênea indistinção calcinada. Pouco antes de minha chegada à Quinta, a Guarda Municipal – com a boçalidade habitual - tentou impedir a aproximação de uma pequena malta, que queria ver com os próprios olhos o que sobrara de seu Museu. Celerados distribuíram pancadas à farta e jactos de spray pimenta, nos olhos dos que queriam ver os sinais inequívocos da perda sofrida. 

O prefeito da cidade do Rio de Janeiro – exemplar inominável da classe política brasileira - lamentou a perda dos "quadros e das obras de arte", sem a mais pequena ideia a respeito do que estava a falar, a eliminação no mundo de um dos maiores patrimônios científicos do planeta. Museu, afinal, lembra velharia, escumalha antiga, coisa de sótão coberto por lençóis encardidos.

(O prefeito-pastor é ícone perfeito da inferioridade estrutural do Estado brasileiro com relação ao património cultural e científico do país. Não há que o interpretar, posto que fala por si. Nesse sentido, facilita-nos a vida, pois permite que apliquemos a inteligência disponível a assuntos mais complexos. Tudo o que dissermos de mau sobre ele soará como meramente tautológico).

Vi colegas, amigos, professores, pesquisadores, estudantes, servidores - todos com os seus crachás, transformados em marcadores de luto. Vi estudantes de escolas das redondezas com seus uniformes. Vi o cartaz elaborado por alunos do Colégio Pedro II, a declarar seu luto; as flores ao pé da estátua do Imperador, premonitoriamente plantado com as costas voltadas para seu antigo palácio.Ali estou. Examino a distância a fachada, que conserva seu prumo e sua cor. Assalta-me a alucinação de que o Museu Nacional não ardeu: ele, na verdade, deixou de existir. O que vier em seu lugar - se vier - será outra coisa. A combustão foi a forma final da sua supressão. Um soterramento e uma submersão pelo fogo, análogo ao efeito da grande lama que encobriu e dissipou vidas e mundos no Vale do Rio Doce, anos atrás.Imensas acusações de (ir)responsabilidade. O facto é que o núcleo duro do sistema político brasileiro é indiferente a tudo que não perceba como essencial a sua reprodução. 

O antropólogo norte-americano Michael Herzfeld, da Universidade Harvard, analisou em obra inspirada a cultura de indiferença dos corpos burocráticos. É sempre a altura de ler o seu livro The Social Production of Indifference, de 1992. Já conhecia, portanto, o problema no plano acadêmico e intelectual, mas tive meu quinhão no âmbito do sempre desagradável princípio da realidade, durante o tempo em que tive a honra de presidir a Biblioteca Nacional brasileira. Passei o último ano de gestão a tentar proteger a instituição da sanha dos “especialistas em gestão” do Ministério do Planeamento e Gestão – o núcleo duro do Estado - que impuseram cortes brutais sobre o Ministério da Cultura e exigiam supressão de cargos gratificados, ocupados na Biblioteca por técnicas responsáveis por coleções tão preciosas quanto as do Museu Nacional. 

Mulheres que dariam a vida pela integridade das coleções sob sua guarda, vitimadas por salários infames e falta de reconhecimento. Salários vergonhosamente inferiores ao dos especialistas em planilhas.As duas instituições, Biblioteca e Museu, não por acaso, nasceram na mesma altura - 1810, a então Biblioteca Real, e 1818, o então Museu Real - dois exemplos que suficientes para que se interrompa a parvoíce de amaldiçoar nossa "herança ibérica". O Brasil, antes mesmo de sua afirmação, em 1822, como Estado nacional independente, já possuía uma casa para os livros e outra para a ciência. Não foi exactamente um mau começo.

O facto duro e, como dizíamos há muito, “objectivo” é que cá estamos. A paisagem é desoladora: não há como dissipar a sensação de viver sob o jugo de elites delinquentes e “administrados” por um cultura de indiferença burocrática. Difícil conviver com  ideia – e o facto – de que se trata de gente para quem a perda do Museu significa algo que não aquece e nem arrefece. O Museu Nacional foi vítima da dura reversão civilizatória que se abateu sobre o lado de cá do "mundo que o português criou". 

Não falo apenas de perda de memória, mas da supressão de futuros possíveis. Mais do que um troço retirado do mundo, trata-se de falha tectônica que afectará nossa topografia e nossos espíritos. Uma lacuna activa que rondará o horizonte do provável, com a miragem sem esperança do que poderíamos ter sido, na hipótese contrafactual de que ela não nos tivesse sido imposta.Julgo não haver alento ou lugar para a esperança imperita de que da tragédia se extrairá lucidez e ímpeto para mudar o leito e o curso naturais da grande alarvidade que se precipitou sobre nós. Há grandes forças a montante e poderosos atractores a jusante. 

É que, por cá, as tragédias não são conducentes à acumulação de energia cívica e de responsabilidade governativa. Sua sequência, ao contrário afunda-nos cada vez mais em perplexidade e indiferença. Será agora diferente? Ou será que somos inapelavelmente resilientes na desatenção ao que é comum?

Deixei de lado a precipitação mental em um abismo pessimista e olhei mais uma vez a fachada. Pensei nos que lá viveram e trabalharam e já não mais cá estão entre nós: os professores Lygia Sigaud, Gilberto Velho, Luis de Castro Faria, Roberto Cardoso de Oliveira, Giralda Seyferth, entre outros. Erro supor que, por nos terem deixado antes da catástrofe, tenham sido poupados de seus efeitos.

Por fim, dou as costas para o cenário do desastre e desço a rampa da Quinta da Boa Vista, com o sentimento de que  um pedaço do país acabou. O único alento real, ao qual merece bem a pena a que ele nos agarremos, é o da disposição de resistência e reparação dos que, de facto, cuidaram da existência do Museu: seus professores, pesquisadores, estudantes e servidores. 


Renato Lessa é professor de Filosofia Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Investigador Associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Membro da Ordem da Instrução Pública, de Portugal. Presidiu a Biblioteca Nacional brasileira, de março de 2013 a maio de 2016.



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Mercado e Porrada: notas a respeito de uma afinidade eletiva



(Publicado na revista Carta Capital, em 3/8/2018, com o título "O 'inominável' e o abjeto")

Renato Lessa[1]

1. O espectro da candidatura de Jair Messias Bolsonaro – doravante designado como “o inominável” – constitui ótima oportunidade para reflexão a respeito da presença do abjeto na política. Uma referência intelectual útil para tal, bem pode ser a clássica e iluminadora obra da antropóloga britânica Mary Douglas (1921-2007), apropriadamente intitulada Pureza e Perigo: uma análise dos conceitos de poluição e tabu, publicada em 1966. Não se trata aqui de apresentar uma resenha acadêmica do livro, mas de trazer à reflexão sobre nossas agruras presentes, algo alternativo à assepsia conceitual politológica, sempre a normalizar os seus objetos e a dar tratamento numérico a aberrações.

Douglas convida-nos a refletir sobre os significados da sujeira e da imundície em nossa experiência cotidiana, e o faz a partir da sugestão de que ambas podem ser percebidas como “matérias fora de lugar”. Em uma de suas anotações, tanto menciona a exposição de dejetos humanos, quanto o singelo depósito de um fio de cabelo infantil no prato de sopa. Nossos hábitos mentais protegem-nos da experiência com a imundície, revelando-a todo o tempo como discrepante e não-assimilável.

Mas, ao mesmo tempo em que o abjeto e o imundo se nos apresentam como matérias fora de lugar, parece fundamental percebê-los como parte integrante de um sistema mais geral das coisas, em curiosa coabitação com matérias em seu lugar. Trocando em miúdos, a experiência radical com o abjeto, mais do que revelar o quanto ele é liminar e insuportável, deve trazer consigo a consciência de seu vínculo com a normalidade da vida: sendo a sua expressão mais repugnante, o abjeto é aspecto revelador do sistema que  o contém e  segrega.

2. Pois bem, “o inominável” é a ostensão do que mais abjeto há no quadro político que se apresenta ao país. A abjeção inerente ao “inominável” dá-se pela defesa aberta que faz da violência na política e pela apresentação ao país de uma gramática e uma retórica do castigo. Uma forma de mundo na qual a eficácia das consequências é diretamente proporcional à quantidade de dor infringida aos inimigos. Cercado invariavelmente por homens musculosos e de semblante duro, o “inominável” percorre o país amaldiçoando os institutos civilizatórios contidos na Constituição de 1988, fundados em uma cultura de mediações e de não-letalidade como fundamento normativo de organização da sociedade. 

(Difícil não entrever na reiteração daquela companhia preferencial hiper-máscula, a força de uma obsessiva homofilia, que exige como compensação ostensão de fúria homofóbica.  Curioso personagem.)

A apologia da tortura, mais do que evocar o “heroísmo” de seus perpetradores, serve a sua reintronização no horizonte das possibilidades: ela é, a um só tempo, reparadora e antecipadora. Um homem fundamentalmente violento faz-se, assim, mito da renitente boçalidade, tão presente no meio de nós. Sua deambulação pelo país é pedagógica: ensina a gramática e a semântica de uma vida sem mediações, fundada no que ela detém de efetivamente real: a possibilidade e a necessidade de infringir castigo físico aos inimigos. Quilombolas, índios, camponeses sem terra, LGBTs, mulheres, sindicatos, estudantes, democratas em geral, etc..., constituem a listagem das vítimas  potenciais desse despautério. Regressão civilizatória: o pau-de-arara no lugar das armas da república.

Os demais candidatos – ordinariamente mais ou menos palatáveis - situam-se no exterior dessa inesgotável reserva de abjeção. Serão maus, bons ou nem tanto assim, mas não necessariamente abjetos. Nesse sentido, o “inominável” não é um candidato normal: ele é a negação mais radical do mundo no qual se dá a possibilidade de escolha entre diferentes candidatos. A ele, portanto, não se deve conceder a perspectiva da normalização, por meio de vocabulário politológico asséptico.

3. O abjeto, como ensinou Mary Douglas, tem parte com este mundo. Sua apologia e sua exibição não se limitam à exortação do passado ditatorial e à expectativa de  reintronização em nossas vidas. Ele possui, em adição, fixação no aqui e no agora: pertence, portanto, ao sistema mais geral das coisas. Como assim?

A ostensão primária da boçalidade e a exortação da violência, por parte do “inominável” a muitos  pareceu incompatível com o “namoro” assumido com a mais extrema agenda liberal em economia e em política social. Seu guru e porta voz, o economista Paulo Guedes, figura entre os mais destacados expoentes de  tal agenda, e disso nunca fez qualquer segredo. Nesse aspecto, aliás, a candidatura do “inominável” começa a ganhar foros de normalidade, já que sua agenda econômica e social não discrepa, no essencial, da apresentada por assessores econômicos de outros candidatos (Alkmin, Marina, Meirelles, pelo menos). Falam todos a mesma língua e percebem a política e o ativismo social como fatores permanentes de irracionalidade.

A fusão entre a gramática da violência e a defesa do ultra-liberalismo em economia e em política social, na verdade, nada tem de inconsistente. Da mesma maneira que o tratamento do tema da segurança pública exige, para a agenda “inominável”, deflação dos direitos civis, a operação livre de uma ordem de mercado impõe a desmontagem dos mecanismos regulatórios e a afirmação de crenças fiscais incompatíveis com as funções constitucionais do Estado brasileiro. Trata-se, aqui, de deflação de direitos sociais. Com efeito, o sonho – na verdade, o pesadelo – de uma ordem de mercado auto-regulada exige o espectro de um agente estatal com idêntico estatuto: auto-regulado. A fórmula que se impõe, admito, é um pouco chula, mas não imagino coisa melhor: mercado e porrada aparecem como termos de uma terrível afinidade eletiva. Que me perdoem os espíritos de  Goethe e Max Weber.

Tal afinidade, por sua vez, alimenta-se de uma cultura mais geral de aversão à abstração, que atravessa praticamente todo o espectro político brasileiro. A ideia de mediação cede lugar a uma metafísica da presença, da ação direta e da expressão de identidades e potencias “genuínas”, que não mais devem ser neutralizadas por valores abstratos. É a metafísica do concreto que se afirma progressivamente entre nós. 

O abismo identitário no qual o campo da esquerda se precipitou, com o desprezo de sua vocação histórica universalista, não poderia deixar de ter contrapartida à direita: o laço social dá-se pela presença de mecanismos de força, sem qualquer abstração, tanto no plano da manutenção da ordem pública quanto da ordem econômica. Apresenta-se ao país algo inédito em sua história: a materialização plena de uma ordem capitalista pré-Estado de Bem Estar Social, cuja vertebração – na falta de qualquer processo institucional de legitimação distributiva – exige máxima disciplina. A agenda não é inconsistente, ela é simplesmente abjeta e, como tal, pertence à ordem dos possíveis e ao tal sistema geral das coisas.













[1]. Professor de Filosofia Política da PUC-Rio e Investigador-Associado do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa.

sexta-feira, 11 de maio de 2018


Sem Lula, esquerda ou se une ou estará fora do 2o turno, diz Lessa
'Neutralização da esquerda' começa com impeachment e acaba com prisão, diz professor
9.abr.2018 às 2h00
Patrícia Campos Mello SÃO PAULO

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fecha o ciclo de neutralização da esquerda no Brasil.
"Esse processo começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e termina com o impeachment preventivo de Lula", diz Renato Lessa, professor de filosofia política da PUC do Rio e investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Para Lessa, se os pré-candidatos da esquerda não compuserem uma frente, há o sério risco de a eleição de 2018 ser disputada entre um candidato de centro- direita e outro de extrema direita.
"Sei que vai predominar a discussão sobre a cabeça de chapa, mas essa visão de curto prazo vai ter que ceder lugar a uma conversa estratégica, ou teremos a perspectiva real de 35% da opinião política não ter expressão nas eleições de 2018, o que é ruim para a democracia".

Folha - Qual é o significado da prisão do ex-presidente Lula? 
Renato Lessa - Trata-se de algo gravíssimo, de conseqüências imprevisíveis. E é um processo que se completa. Cada vez mais perde materialidade o fato inicial que teria levado ao impeachment de Dilma Rousseff, as pedaladas, que eram práticas triviais, embora juridicamente condenáveis, nos governos anteriores.
No contexto de perda de maioria parlamentar de Dilma, isso levou ao impeachment. No entanto, achava-se que esse processo se esgotaria com o impeachment e a virada de governo, a substituição pelo poder do outro grupo. Mas essa manobra para trocar o grupo no poder se completa é com a prisão de Lula.
Pensando historicamente: o governo de Getúlio em 1945 termina não porque Getúlio era um ditador. Ele tinha deixado de ser um ditador, os militares que o apoiaram enquanto ditador o depõem quando ele começa a democratizar o regime. O governo João Goulart acaba do jeito que acabou. E não o governo Lula, mas Lula como personagem político que poderia voltar também sai de cena. É algo para se pensar: como terminam os governos de extração popular no Brasil?
O que se produziu nos últimos dois ou três anos foi um processo de neutralização de um segmento importante da política brasileira, a esquerda.
Folha: Em que sentido a esquerda está neutralizada hoje?
Renato LessaHouve um deslocamento do governo de uma maneira heterodoxa e depois a neutralização política do provável sucessor, Lula. 
São dois impeachments. Esse processo começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e termina com o impeachment preventivo de Lula. Quebrou o vínculo da esquerda com sua base eleitoral, popular, tirando o principal líder de cena, Lula.
Um aspecto importante desse processo é o eixo Curitiba-Porto Alegre, com um grau impressionante de coordenação. Ao mesmo tempo, do lado do Supremo Tribunal Federal, uma negação de habeas corpus por 6 a 5. É inusitada a mudança da pauta não tratar do caso genérico em primeiro lugar para depois tratar dos casos particulares. Se fosse outra pauta, o resultado era outro, Lula não seria preso, o jogo continuaria.

É um processo obscuro, que produz conseqüências graves. O país está sendo governado pelo sindicato dos deputados. Os representantes se representam no governo, não representam ninguém por trás deles.
Essa ideia de que justiça se faz com a punição, esses comentários panglossianos de que com a prisão de Lula está garantido o Estado de Direito. É a hegemonia do discurso da limpeza, de prender todo mundo. O brasileiro quer ter um preso para chamar de seu. Ficamos com essa concepção de justiça. Pode continuar com fome, desigualdade, pessoas seis horas por dia no ônibus para trabalhar. Tudo pode. Mas tem que haver lisura.

Folha: Quão eficiente foi a manobra de neutralização da esquerda?
Renato Lessa: Idealmente, configurada a impossibilidade prática da candidatura de Lula e, para mim, já está configurada, é preciso trabalhar com o modelo que os uruguaios têm há bastante tempo, uma Frente Ampla de recomposição da democracia.
Folha: Mas o PT aceitaria uma Frente Ampla sem ocupar a cabeça da chapa?
Renato Lessa: Por isso comecei o raciocínio dizendo idealmente. Seria interessante que o Ciro Gomes conversasse com o Fernando Haddad, a Manuela D'Ávila, e alguém um pouco mais para o centro. A criação de uma frente ampla voltada para a recuperação do ambiente democrático e sinalizando pautas de igualdade social. E Lula deveria deixar uma mensagem de convergência.

Os candidatos desse campo terão de convergir para que algum deles chegue com chance de vitória no segundo turno. Há o risco real de haver um segundo turno entre a centro direita e o inominável, a extrema direita. Na prática, sei que vai predominar a discussão sobre quem vai estar na cabeça de chapa, mas, em algum momento, essa visão de curto prazo vai ter que ceder lugar para uma conversa estratégica, ou então teremos a perspectiva real de 35% da opinião política não ter expressão nas eleições de 2018, o que é ruim para a democracia.
Folha: A prisão do Lula sinaliza que todos os políticos podem ser presos, ou há duas velocidades e duas medidas?
Renato Lessa: Mesmo que continuem a prender políticos, vão ser dois pesos e duas medidas, porque não vão conseguir prender, do outro lado, alguém com a estatura do Lula. Não existe um equivalente que desmonte o campo da centro direita brasileira, que represente um desafio brutal como a neutralização do Lula significa para o campo da esquerda.

Mesmo que a Lava Jato continue, ela vai pegar personagens periféricos, ou governadores como Sergio Cabral, que destruiu o próprio estado. O Aécio Neves não corresponde ao Lula em termos de estatura na organização e ele foi protegido. O próprio presidente Temer, até certo ponto, não é processado porque tem o sindicato dos deputados que garante a sua proteção. E mesmo que vier a perder o foro, sem mandato, o seu processo vai começar na primeira instância e sendo o presidente um especialista jurídico, vai transitar em julgado daqui 50 anos, mesmo se mantiverem a decisão de segunda instância.
Folha: Como fica a esquerda com Lula fora do jogo?
Renato Lessa: A esquerda tem um desafio enorme. Os nomes estão postos "“ Ciro Gomes, talvez Fernando Haddad e, com menor expressão eleitoral, mas com expressão política, a Manuela Dávila. Guilherme Boulos, pelo PSOL, vai numa linha completamente autonomista. O PSOL tem a perspectiva de colher os despojos, não de cooperar numa frente comum.
Faria sentido esses três nomes conversarem e incluírem elementos de centro mais progressistas. Não sei se todos os tucanos estão satisfeitos
com o que está acontecendo, talvez também o campo da Rede. É necessária uma conversa para a recomposição de um campo de centro- esquerda reformista moderno, capaz de dar segurança para a economia, mas, ao mesmo tempo, repor a perspectiva social.
Uma das questões é a dificuldade de encontrar o candidato de centro. Toda vez que se cita o candidato que seria de centro, em qualquer país do mundo, ele seria considerado de direita. Geraldo Alckmin (PSDB) não é de centro, tem valores conservadores. Não é um xingamento, e só uma topografia. Rodrigo Maia (DEM) também.
Folha: Qual é o impacto da comoção em torno da prisão do Lula? Qual é a força e durabilidade desse movimento?
Renato Lessa: Ela vai permanecer durante algum tempo. Mas vai depender muito de como a prisão vai ser feita, quanto tempo Lula vai ficar preso e qual é a capacidade que ele vai ter de falar da prisão, sua relação com o mundo aqui fora. A prisão produz efeitos, mas eles vão aos poucos se incorporando na rotina das pessoas, a menos que ele tenha um operador político aí ativando isso de alguma maneira.
O país hoje tem uma extrema direita aberta, com visibilidade, que representa o resíduo de boçalidade presente no Brasil, mas entrou no sistema político e tem um candidato competitivo. Não acredito que esse candidato vá perder votos porque o Lula vai sair. Esse candidato expressa demônios que estavam no fundo da garrafa e foram destampados a partir do processo de impeachment. Algo que mesmo os líderes do impeachment não imaginavam que pudesse acontecer. Os caciques do PMDB e PSDB não imaginavam que essa subcultura protofascista se disseminasse tanto.
Enquanto isso, não há discussão de uma agenda que precisaria ser discutida na eleição. Ninguém pode negar que a questão da Previdência precisa ser discutida, embora eu discorde da forma como o governo Temer fez isso. Uma boa hora para discutir é uma campanha eleitoral, com conteúdo, não só com marketing político.
Essa discussão não foi levada ao cidadão, tentou se passar essa agenda através de uma mudança heterodoxa no ciclo político. Apesar de dizerem que Temer mantinha ótimo trânsito com o Parlamento, a mãe de todas as reformas, da Previdência, não vingou, a reforma trabalhista é uma medida provisória que vai vencer daqui a pouco. A única reforma que passou foi o teto de gastos, que fica prejudicado se a da previdência não passar.

RAIO-X
Formação

- graduado em ciências sociais pela Universidade Federal Fluminense (1976)
- mestre (1987) e doutor (1992) em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio (IUPERJ)

Cargos

- professor associado de filosofia política na PUC-Rio
- investigador associado da Universidade de Lisboa
- ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional (2013-2016) - ex-diretor-presidente do Instituto Ciência Hoje (2003-2013)

Sem Lula, esquerda ou se une ou estará fora do 2o turno, diz Lessa 09-04-2018 INTERNET 7 de 7
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