quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A cidade e a biblioteca

(Texto de introdução ao catálogo "Rio de Janeiro 450 anos: uma história do futuro", alusivo à exposição de mesmo nome, aberta à visitação na Biblioteca Nacional, até novembro de 2015). 

A cidade do Rio de Janeiro completa, no ano de 2015, quatro séculos e meio. O que isto quer dizer? Pode a constatação contábil do depósito do tempo linear elucidar algo do significado da vida de uma cidade? Mais do que indagarmos a respeito do acúmulo de tempo e de coisas que configurou o presente, pode ser oportuno imaginar outra ordem de inquietação. Com efeito, quantas cidades incompletas se insinuaram e feneceram naquela, para os padrões locais, longa duração? Uma cidade incompleta pode bem ser uma urbe que não veio a existir, urdida e desejada, mas não fixada na experiência comum. Pode ser, ao contrário, – e o é com imensa frequência – uma cidade realmente existente, porém sem espírito; incipiente nos limites da sua materialidade: sem metafísica, filha da força dos fatos, da astúcia, do cimento armado, da velocidade e do vergalhão.

De que cidade, afinal, estamos a falar? Pergunta, para já não respondida, que se deseja fixar na experiência do espectador da exposição Rio de Janeiro 450 anos: uma história do futuro, registrada neste catálogo. Que ela acompanhe o leitor e o visitante que, ainda que tocados pela beleza e pela pungência do que aqui se verá, se dispuserem a refletir sobre o que somos, seremos e deixamos de ser.

Exibir imagens e registros do Rio de Janeiro, tal como o faz este catálogo, é algo que evoca a intuição do poeta T. S. Eliot, em uma de suas obras primas, o poema Burnt Norton: “Se todo tempo é eternamente presente/Todo tempo é eternamente passado/Todo tempo é irredimível./O que poderia ter sido é uma distração/Que permanece, perpétua possibilidade,/Num mundo apenas de especulação”. Quantos futuros possíveis estão contidos na experiência do presente? É impossível imaginar a história desta cidade sem o salto distraído no espaço vazio da especulação. Cidade de possibilidades suprimidas, de futuros precocemente desfeitos: não foi assim com sua Avenida Central, condenada a uma reedição do bota-abaixo que lhe deu origem, poucas décadas após sua inauguração, em 1906?

As imagens que aqui estão são o que são: fixam, sem dúvida, instantes pretéritos, pontos de partida do que veio-a-ser. Podem, no entanto, ser tomadas como objetos-de-tempo-e-lugar nos quais incontáveis protótipos do que não-veio-a-ser encontravam sua morada, na deslocada e pudica latência das coisas que não passam ao ato. Olhar e rever estas imagens não evoca simplesmente o passado deste aqui e agora; deste presente no qual mantemos os pés no chão e nossos olhos a exercer seu inquérito visual. Mais do que isso, trata-se de intuir e reinstituir a vigência imaginária de uma variedade de presentes passados, portadores de futuros possíveis que não vieram a ser.

Quem poderá dizer que a ausência de tais futuros, e a saudade do que não foram, não está aqui inscrita na matéria do que veio a ser, presente na composição do olho que agora os revê? O olho que vê é um órgão da tradição, tal como asseverou Franz Boas. Quanto dessa tradição, desse aprendizado tácito e irreflexivo de olhar as coisas, não deriva do sentimento de falta do que não veio a ser? Uma cidade, como uma vida, resulta também do que lhe foi extraído como possibilidade. É de admitir, ainda a presença invencível da estranha dialética – ou enigma, o que dá no mesmo - que faz com que efeitos propiciatórios emerjam dos próprios atos dizimação.

Trata-se aqui de repor o passado no futuro. Henri Bergson, que dedicou seus melhores esforços para lidar com os temas do tempo e da duração, bem autoriza a pretensão aqui anunciada. Em sua obra L’Énergie Spirituelle, de 1919,  sugeriu que sem a sobrevivência do passado no presente, não haveria a sensação psicológica da duração, mas tão somente “instantaneidade”. Há, contudo, modos distintos de duração. Pode-se, por exemplo, trazer o passado como forma de apresentação das circunstâncias que explicam o futuro. Não é o que aqui se sugere, mesmo porque nada é explicado, mas tão somente mostrado. Mais apropriado do que exigir que o passado explique o futuro, caberia interpelar a este último sobre os modos pelos quais lidou com o primeiro.

Em termos mais diretos, o que se sugere é que reflitamos sobre os efeitos do presente sobre o passado, e não nos limitemos à chave fácil de buscar a elucidação das coisas pela reconstituição linear da série temporal. O antes nem sempre explica o depois; é este que, se calhar, nos deve a apresentação das justificativas pelo que veio a ser. Trata-se de pensar o futuro, ao mesmo tempo, como decorrência do que ocorreu e daquilo que não veio a ocorrer. O sentimento de duração pode bem abrigar uma sombra, alucinatoriamente preenchida pelo que poderia ter sido.

Que lugar pode abrigar os materiais para esta especulação, para esta crono-ludo-terapia, senão uma biblioteca, ou melhor, a biblioteca da cidade, cujo passado é uma coleção de futuros possíveis? A decisão da Biblioteca Nacional em integrar o conjunto de iniciativas culturais em torno da efeméride dos 450 anos do Rio de Janeiro partiu do reconhecimento da interdependência histórica estabelecida com sua cidade de abrigo. Desde a sua criação em 1810, a Biblioteca Nacional acumula dois traços que lhe são indeléveis: instituição permanente do Estado e do povo brasileiros; instituição fixada na vida da cidade do Rio de Janeiro. É este último aspecto que, neste momento, deve ser ressaltado: como imaginar a história da Biblioteca Nacional, sem incorporar em suas identidades básicas a presença da cidade que a contém? Ao mesmo tempo, como pensar a cidade, sua memória e seus futuros possíveis, sem o que aqui se guarda? Tal ordem de questões esteve presente na escolha do recorte adotado: mostrar o Rio de Janeiro na – ou da - Biblioteca Nacional. E como os atos de mostrar nunca são inocentes, sobretudo quando lidam com o tempo, a exibição de fragmentos do que foi esta cidade trás consigo o convite a imaginar como poderia ter sido e como será.

Uma exposição a respeito da cidade não deixa de ser uma forma de intervenção. Esta se dá pela possibilidade de reflexão sobre a experiência de estar nesta cidade. Por mais locais que sejamos, compartilhamos um dos mitos brasileiros básicos, qual seja o de que o futuro arranca do presente de modo fáustico, sem qualquer dívida ou vínculo com o passado. Em nossa obsessão pelo futuro, somos imparáveis cronocidas. Não é difícil encontrar na história da cidade evidências compatíveis com tal inclinação: construímos, destruímos, apagamos, acrescentamos. A cidade, tal como a exposição o indica, é uma obra aberta, pela qual pulsões de vida e de destruição andam ao par. Nela nunca teremos a sensação das cidades prontas.

No entanto, uma cidade é sempre um abismo para dentro de si. Por mais que a ela se somem novas dimensões, é da natureza dos atos de suplementação acrescentar complexidade à vida, já que percorrem simultaneamente direções distintas e de complementaridade tensa. Com efeito, a principal intervenção contemporânea no desenho da cidade do Rio de Janeiro é orientada por uma perspectiva de restauração: com a demolição da Avenida Perimetral, devolvemos à cidade o direito de ver o mar; reintroduzimos os bondes no Centro da cidade. Parte da cidade se reinventa a partir de um desejo de recuperação do que se perdeu. Possibilidades dissipadas são recuperadas e, dessa forma, uma certa atração pelo passado – pela intuição de que em vários aspectos já estivemos em melhor situação – molda os desenhos de futuro. Somos seduzidos pelas escavações, pela sede de ver as entranhas de uma terra de idade remota, nas quais, se calhar, estão guardadas verdades e segredos dos quais nem os nomes sabemos. Olhar para as fendas do chão e sobre elas exercer as artes de um voyeurismo arqueológico. Aceder a um mundo de pedras justapostas por óleo de baleia e adivinhar os que por ali deambularam.

Uma cidade aberta em exumação, que a exige como passo necessário para o futuro. Adoramos o futuro, por certo, mas quando pensamos no que somos como sujeitos desta urbe, escavamos, abrimos buracos e dirigimos ao centro da terra perguntas cruciais que todos nos fazemos: quem somos? Quem, ou o que, fez com que sejamos o que somos? O que fazer com isso?

Uma cidade que, apesar de cronocida e devoradora precoce dos seus artifícios, exige a vigência do passado como sua plataforma de lançamento para o futuro. Em breve, saberemos praticar as artes do desaterro, teremos mares e lagoas de volta, veremos saltar aos nossos olhos o Saco de São Diogo, a Praia do Alferes, a Ponta do Calabouço. Quem sabe, acharemos o corpo de Dana de Teffé, um dos maiores mistérios da história da cidade e preocupação do grande imortal carioca Carlos Heitor Cony[1]. Porque não imaginar, ainda, a arte da remontagem de morros arrasados?

Cidade voltada para o centro da terra. Outras exigem o ar e as altitudes. Há, ainda, as fixadas em desertos, em pura matéria inorgânica. Aqui, não deixamos de ser cativos de uma vocação telúrica, de um desejo de extração orgânica do sentido entranhado em camadas tectônicas. Cavamos túneis, mexemos com a terra, arrasamos morros, soterramos o mar. Cidade de terra movediça, inimiga da imobilidade, da permanência. Quando descobrimos nossos vestígios soterrados, tornamo-nos doces e rememoriados. Sobrevém-nos a tristeza e o enternecimento típicos dos que se lembram de suas infâncias.


Escavar mais, descobrir mundos que por aqui circularam, orientar a escuta para a incontável coleção dos possíveis, fixada nos instantâneos aqui selecionados, para tentar responder às perguntas com as quais abrimos este texto. Especular sobre o que seremos e sobre o que poderíamos ter sido. Quanto da intuição exercida no modo gramatical do futuro do presente depende do exercício imaginário aberto pelo modo gramatical do futuro do pretérito? A experiência com o mundo é feita de matéria de memória – expressão que é título de um belo livro de Carlos Heitor Cony, já aqui  evocado. Memória do que aconteceu; memória daquilo a que não foi dado acontecer.

Quantas cidades, enfim, existem nesta cidade? Quantas arqueologias nela são possíveis? Não dá para ter contagem, nem sequer aproximada, dessas cidades. Sabemo-las existentes, contudo, pelos sinais finamente guardados na grande biblioteca do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional.

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A exposição Rio 450 anos: uma história do futuro contou com a curadoria e coordenação do poeta e acadêmico Marco Lucchesi. Curadoria compartilhada com o trabalho dedicado das responsáveis pelas chefias das Divisões de Coleções Especiais da Biblioteca Nacional, a saber: Maria José Fernandes, Acervo Especial; Maria Dulce de Faria, Cartografia; Léia Pereira e Monica Carneiro, Iconografia; Vera Faillace, Manuscritos; Ana Virgínia Pinheiro, Obras Raras; Elizete Higino, Música e Carla Chianello Ramos, Periódicos.


Rio de Janeiro, junho de 2015



                                                                                     



[1]. Dana Fitscherova, judia tcheca, foi casada com o Embaixador Manuel de Teffé, de quem adquiriu o sobrenome que lhe daria triste fama. Em 1961 desapareceu, em meio a uma viagem entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Nunca mais se soube dela, viva ou morta. Foi um dos casos mais rumorosos da crônica criminal carioca dos anos 1960

Brasil: matéria de crítica, interpretação e fabricação de mundos
(Sumário de conferência a ser proferida na Academia Brasileira de Letras, no dia 25/8/2015, às 17:30, com entrada franca) 
Uma das vertentes mais instigantes da filosofia do século passado foi desenvolvida por Nelson Goodman, inspirado em intuições e argumentos de gênios tais como Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein. A mais célebre tese de
Goodman sustenta que somos – os humanos – fabricantes de mundos, através da invenção e manipulação de símbolos. A forma de vida dos humanos radica, de modo inapelável, em sua incessante faina de elaboração simbólica. Não se trata, apenas, de inventar mundos imaginários. A própria vida prática, com suas implicações materiais, decorre de atos de fabricação de mundos.
A intuição de Goodman vale tanto para as biografias individuais, quando para experiências coletivas. Quero crer que possa ser, mesmo, aplicada a histórias nacionais.
Na conferência, pretendo revisitar alguns dos mais imaginativos esforços de interpretação do Brasil, indicando os efeitos de “invenção de mundos” presentes em cada um dos atos interpretativos. O objeto interpretado não resiste a sua interpretação. É, antes, um efeito da própria ação cognitiva que procura explicá-lo. Essa intangibilidade dos objetos, em sua solidão objetiva e exterior, é, de modo inevitável, assaltada pelas artes da elaboração simbólica. Delas resultam formas de ação no mundo, por meio das quais a imaginação se faz decantar, tanto na configuração das coisas como na do olho e do espírito que as percebem. A um só tempo, no sentido e no sentimento do mundo, em chave drummondiana.
A intenção é a de considerar obras tão díspares quanto ímpares, criadas por autores tais como Sylvio Romero (Brasil Social), Gilberto Freyre (Interpretação do Brasil), Sergio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil), Mario de Andrade (O movimento modernista), Oliveira Vianna (Instituições Políticas Brasileiras), Raymundo Faoro (Os Donos do Poder), Álvaro Vieira Pinto (Ideologia do Desenvolvimento) e Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro).
O que fazer com conjunto tão heteróclito?
Menos do que descrever com minúcias as visões ali apresentadas, importa detectar a perspectiva épica presente nos esforços de interpretação da experiência do Brasil como país. A série, sem dúvida, poderia ser estendida; há lacunas imperdoáveis, mas não parece haver presenças injustificadas. A ideia de “perspectiva épica” decorre de uma fina expressão, do filósofo politico norte-americano Sheldon Wolin, crítico da infestação positivista e cientificista que assolou os estudos políticos acadêmicos, a partir dos anos 1950. Wolin chamava a atenção para a importância de uma teoria política épica, como reserva de sentido para a investigação dos objetos políticos postos no mundo.
A suposição, a ser desenvolvida na conferência, é a de que a história intelectual brasileira – em particular em seu nicho dedicado à crítica social – encerra em si mesma episódios de natureza épica, a partir dos quais imagens de país e paradigmas de ação política e social são introduzidas na vida ordinária. Os grandes paradigmas de interpretação são aqueles que dão forma à experiência da vida.
Este último ponto é importante: não se trata de  esforços de imaginação que nos indiquem o caminho para as nuvens, para fora do mundo. Ao contrário, eles trazem-nos para o mundo: são modos de suplementação da experiência. Como tal, são instituidores de sentidos dotados de implicações de natureza prática. Parte não desprezível da resposta à pergunta clássica de Jean-Jacques Rousseau – o que faz de um povo um povo? – está contida nos atos simbólicos de invenção de experiências compartilhadas. A outra parte tem a ver com o acaso, mas este, por definição, está fora da linguagem e desaba sobre nós com a força invencível daquilo que não se faz antecipar pela imaginação.







terça-feira, 14 de outubro de 2014

  
Fascismo e homofobia
Renato Lessa
Acostumamo-nos à ideia de que o fascismo é um regime político e um dos modos possíveis de exercício do poder. A expressão ‘Itália fascista’ nos traz à mente, antes de tudo, a imagem de um período histórico, felizmente encerrado ao fim da Segunda Guerra Mundial. Nada de errado com a associação entre fascismo e exercício do poder. No entanto, há na perspectiva fascista muito mais do que isso.

O fascismo é, sobretudo, uma visão de mundo. A circunstância de que tal visão tenha dado passagem a um regime político, em um período específico, não elimina o fato de que um caldo de cultura fascista pode sobreviver e proliferar na ausência de aspectos inerentes ao experimento político que o materializou.

Um dos núcleos duros da visão de mundo fascista é a valorização da violência na política e a preferência por métodos de ação direta. A palavra ‘ímpeto’ bem pode simbolizar a coisa. Ela foi fundamental para definir também uma forma estética, fundada no amor pela guerra, no culto à velocidade e na desconfiança fundamental com relação à cultura de mediações que marca o processo civilizador. Em outros termos, no lugar das mediações e do princípio do estado de direito – características culturais centrais do processo civilizador –, os fascistas propõem uma cultura política instantânea, baseada no máximo atrito das energias políticas e sociais e, sem surpresa, no uso da força que disto decorre. O fascismo, hoje, é, mais do que uma ideologia, uma linguagem, uma forma de vida.

Um aspecto estruturante do fascismo é a eleição de um inimigo, de uma vítima expiatória. Nesse fenômeno, magistralmente estudado pelo cientista social e historiador franco-americano René Girard, alguns seres humanos são tomados como vítimas de um processo de expiação. Quer isso dizer que, por meio de sua eliminação, a comunidade dos eliminadores ganha homogeneidade e pureza. Não há fascismo – ou sua deriva alemã, no nazismo – sem vítimas expiatórias. O destino destas não decorre de nenhuma de suas características intrínsecas, mas tão somente da brutalidade e do ímpeto do processo que as define como inimigas.

Os judeus ocuparam, durante grande parte da história ocidental, o papel predileto de vítimas expiatórias. Para além dos registros históricos, que se leia o magistral O faz tudo, do escritor norte-americano Bernard Malamud (1914-1986), a respeito de um violento surto de antissemitismo na Rússia tzarista.

No Brasil, sem sombra de dúvida, não vivemos sob o fascismo. A besta, por certo, esteve a nos rondar, mas por aqui não fixou uma tradição política. No entanto, conhecemos processos terríveis de fabricação de vítimas expiatórias. O país, por exemplo, é o segundo colocado em uma escala mundial macabra: a da incidência de linchamentos. Um linchamento é, por excelência, um ritual de expiação, pelo qual uma comunidade se purifica com a eliminação do que julga ser um dejeto.

A homofobia, tão forte e renitente no país, é um dos traços culturais que abrigam um desejo de expiação. O crescimento de bancadas ultraconservadoras e fundamentalistas, nas últimas eleições legislativas no Brasil (14% da Câmara dos Deputados) deixa entrever uma poderosa coalizão de cerca de 70 deputados, devotados à tarefa de desfazer o pacto civilizatório expresso na Carta de 1988. Temas como redução da maioridade penal, veto à união civil homoafetiva e recusa à criminalização da homofobia têm ganhado visibilidade, como bem demonstrou o patético comportamento de um dos candidatos à presidência, digno exemplar do abismo e da cloaca política nacional.

A causa dos direitos dos homossexuais deixou há muito de ser uma ‘pauta local’, ou tema de ‘minorias’. É fundamental defendê-la, tanto pelo respeito devido ao direito de definir orientações sexuais pessoais, quanto pela preservação daquilo que o escritor italiano Primo Levi (1919-1987) definiu como o “esqueleto, a forma básica da civilização”.

(Coluna mensal “Sobrehumanos” da Revista Ciência Hoje, a sair no número de novembro de 2014)




Fronteiras da Ciência
Renato Lessa 
O governo brasileiro, há poucos anos, lançou um ambicioso programa de internacionalização no campo da educação, denominado ‘Ciência sem Fronteiras’. A iniciativa ganhou vulto e hoje se apresenta como prioritária no campo da cooperação científica. O programa proporciona a estudantes brasileiros – sobretudo, mas não exclusivamente, de graduação – vivência em instituições internacionais significativas. Sendo a atividade científica uma prática, não digo sem fronteiras, mas com fronteiras distintas das geopolíticas, a exposição de jovens brasileiros a um universo mais cosmopolita é de valor indisputável. Cabe, no entanto, refletir sobre as fronteiras que acabamos por criar, mesmo em contextos nos quais cremos que estamos a eliminá-las.
Criar fronteiras e distinções é atributo humano. Mesmo em experimentos mais libertários, nos quais limites são implodidos, instituímos novos limites que, por sua vez, estabelecem novas oportunidades, inapelavelmente autolimitadas. Fora do âmbito improvável de sujeitos ungidos por uma onipotência de fundamento divino, somos seres que a todo tempo criamos novos limites. A atividade científica, em particular, por mais induzida que seja à inovação e à descoberta, é sempre orientada por decisões de política científica que estabelecem tanto oportunidades quanto limites. Não há sociedade que não estabeleça fronteiras internas e restrições em todas as atividades que desenvolve e promove por meio de políticas de governo.  
Duas fronteiras, com algum impacto restritivo, estão presentes no programa ‘Ciência sem Fronteiras’. Uma, de caráter geral, diz respeito à exclusão, do conjunto de cursos abertos ao programa, do vasto campo das humanidades. Outra, mais específica, tem a ver com a não inclusão de Portugal como país de destino dos estudantes brasileiros beneficiados pelo programa.
Em ambas, trata-se de decisões de natureza política, normais e legítimas em Estados democráticos. No entanto, é sempre importante indagar a respeito das crenças subjacentes a processos de decisão política. A decisão política de não contemplar o conjunto das humanidades no programa decorre de uma crença nas virtudes intrínsecas da ideia de ‘inovação’. Deixo de lado o aspecto em nada incontroverso do termo, para por sob foco a subcrença de que a inovação tem parte necessária com progresso tecnológico e este, por sua vez, exige como condição de possibilidade a prioridade para as assim chamadas ciências da natureza – tanto orgânicas quanto inorgânicas. Uma das piores formas de obscurantismo consiste em sustentar que o conhecimento científico a respeito dos processos naturais não faz parte do patrimônio cultural dos humanos, opondo, assim, ciência à cultura.
Obscurantismo análogo consiste, entretanto, em supor que o esforço de conhecimento sobre processos históricos, sociais e culturais tem relevância cognitiva menor e incidência diminuta na vida prática dos humanos. Para o bem ou para o mal, há incontáveis ‘inovações’ conceituais e práticas decorrentes do exercício reflexivo sobre a história e a vida social. A exclusão desse campo constitui uma fronteira injustificável do ponto de vista do conhecimento e a interposição de um limite ao desenvolvimento da capacidade de interpretação do próprio país.
As universidades portuguesas, apesar da significativa internacionalização, não são consideradas ‘parceiras’ sobretudo por serem lusófonas. A língua portuguesa é rebaixada à categoria de um idioma regional, não compatível com os padrões da linguagem científica internacional. Não se admite que o idioma português – tal como o espanhol – possa ocupar tal dimensão. É, ademais, uma decisão de política linguística que aplica ao idioma português um efeito de menos-valia. Além disso, implica não reconhecer a excelência e o cospomolitismo das universidades portuguesas, fortemente associadas ao conjunto do sistema universitário europeu.

(Coluna mensal - seção "Sobrehumanos" - na Revista Ciência Hoje, setembro de 2014)



Discurso de Abertura da 30a Feira do Livro de Gotemburgo (Suécia)
Gotemburgo, 25 de setembro de 2014

Exma. Sra. Maria Kallsson, Diretora da Feira do Libro de Gotemburgo
Exma. Sra Anna Falck, Diretora Executiva da Feira do Libro de Gotemburgo
Exmo. Sr. Bertil Falck, Fundador da Feira do Libro de Gotemburgo
Exmos. Srs. Representantes do Governo Sueco e da  Cidade de Gotemburgo
Exmos.  Membros da Delegação Brasileira
Senhoras e senhores,

Em nome da Exma. Ministra da Cultura do Brasil, Sra. Marta Suplicy, quero expressar nossa profunda gratidão pela escolha do Brasil como Convidado de Honra, para a 30a Feira do Livro de Gotemburgo. É um privilégio para o Brasil – e para sua literatura em particular – usufruir de tal condição em um evento de tal prestígio.
O convite, estou convencido, é um sinal inequívoco do reconhecimento da qualidade e da importância da literatura brasileira no cenário internacional.  Penso que ele exprime, ainda, uma aguda percepção dos esforços continuados do Ministério da Cultura brasileiro, através da Biblioteca Nacional, de fomentar a crescente internacionalização da literatura brasileira. A participação brasileira em eventos internacionais de grande importância – tais como as feiras de Frankfurt e Bologna (2013) e o Salão de Paris (2015), nos quais o Brasil figura como convidado de honra – e o Programa de Tradução de Autores Brasileiros, executado pela Biblioteca Nacional, são evidências do apoio aqui mencionado.
 Trata-se de uma ação que, sem dúvida, contribui para maior abertura do mercado internacional para autores brasileiros. Estou convencido, no entanto, de que se trata de muito mais do que isso.
Há muitas formas possíveis de cooperação e interdependência entre as nações. Usualmente, tais formas baseiam-se em interesses econômicos mútuos, comércio e razões estratégicas e  geopolíticas. A despeito do papel central ocupado por tais dimensões – por razões bastante compreensíveis – parece-me vital “investir” naquilo que poderia ser designado como um “padrão de interdependência imaterial”, baseado em programas e ações no campo da cultura, da arte e do pensamento. No campo, para ser mais preciso, da literatura, que reúne e exige como condição de possibilidade todas aquelas dimensões.
Agendas imateriais decorrem de atos de imaginação. Tais agendas contêm coleções de – para usar uma expressão do escritor francês Paul Valéry - “coisas vagas e imprecisas”, fundamentais para a existência dos humanos. O mesmo Paul Valéry perguntou: “O que seria de nós sem o socorro do que não existe?
A literatura emana dessa inclinação para mundos possíveis e imaginados. Ao fazê-lo, e tal como sustentou o escritor italiano Italo Calvino, a literatura se oferece como forma de conhecimento: o conhecimento de coisas não existentes – ou ficcionais – que afetam nossa própria existência no mundo, digamos, real.
A força imaginativa da literatura brasileira pode ser representada de modo fino e fiel por meio das intuições de Valéry e Calvino. Mas, para acrescentar ao argumento um sabor brasileiro, basta recordar o verso do grande poeta maranhense Ferreira Gullar, de seu poema Traduzir-se:
Uma parte de mim pesa, pondera. Outra parte delira.
Podemos imaginar uma colagem poética na qual o verso de Gullar apareça associado a um fragmento de outro extraordinário poema (Sentimento do Mundo), cujo autor é outro grande poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade:
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
Já que a poesia lida com a imaginação, é possível imaginar poemas não existentes, tais como a colagem que acabo de sugerir. Por meio dela, dá-se a ver o ímpeto projetivo e criador – da arte na direção da existência – que a prática literária – em suas diferentes formas – pode assumir.
Nos esforços desenvolvidos com vista a maior internacionalização da literatura brasileira creio ser importante enfatizar que o poder imaginativo da literatura brasileira é responsável, em grande medida, pelos utensílios intelectuais que dispomos para compreender o Brasil, uma tarefa nada simples. Pela força de sua qualidade formal, a literatura brasileira ajuda-nos a perceber, ainda, seus aspectos intrínsecos, como prática estética e imaginativa. Trata-se, pois, de um processo pelo qual a literatura nos acompanha em nossas indagações diante do mundo, ao mesmo tempo em que estabelece padrões de gosto estético, ao permitir a apreciação da forma em si mesma como objeto de desfrute.
A agenda imaterial que mencionei conecta-se a este entendimento da literatura: a literatura não reflete a realidade; ela afeta a realidade. Ela o faz – quase sempre sem propósito (e por isso deve ser absolutamente livre) – ao atuar sobre a sensibilidade dos leitores, sobre seus mapas cognitivos e valorativos, afetando, por essa via, seus modos de existência. Trata-se, pois, de coisa séria.
Essa é a experiência de um país no qual clássicos tais como Dom Casmurro, Os Sertões, Vidas Secas, Grande Sertão: Veredas, entre outros, agiram no sentido de formar nossos aparelhos de percepção a respeito do que é – e pode ser – o Brasil.
Esperamos que a tão desejada “internacionalização” da literatura brasileira possa ser entendida de forma dupla. Como apresentação e divulgação de uma literatura embebida em uma história particular e, ao mesmo tempo, como algo a ser acrescentado a um fundo comum de objetos imateriais, compartilhável por toda a humanidade. Para citar alguns exemplos deste magnífico país, a Suécia: o escritor August Strindberg, o cineasta Ingmar Bergman, o pintor Ragnar Sandberg e a mezzo-soprano Anne Sofie von Otter, além de inequivocamente suecos, são partes constitutivas do fundo comum ao qual aludi.
Para o Brasil, receber a honoraria oferecida pela Feira de Gotemburgo e para ela trazer alguns de seus melhores profissionais da imaginação dá-nos a sensação de poder usufruir de um dos modos mais potentes do sentimento do mundo.
Essa talvez seja a principal razão para expressar nossa gratidão ao convite que nos foi formulado.
Gotemburgo, 25/9/2014
Renato Lessa
Presidente da Biblioteca Nacional
Em representação da Exma. Sra. Ministra da Cultura do Brasil, Marta Suplicy