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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Duas inversões nada republicanas

(Versão ampliada de coluna publicada na revista Ciência Hoje, Outubro de 2016)

Crises políticas, tal como a atravessada pelo país nos últimos tempos, produzem fortes efeitos de ofuscação. Tendem a ser feéricas e dotadas de tal fertilidade de facetas que acabam por confirmar uma bela intuição da lavra do escritor israelense Amós Oz, a de que o excesso de luz por vezes ofusca a verdade. Temos, por certo, que usar com pudor o termo “verdade”, substituindo-o, se calhar, pela mais comedida expressão “capacidade de observação”.
Com efeito, os hábitos correntes da análise política – acadêmica ou jornalística – com frequência vinculam o analista ao abismo da conjuntura e do momento imediato, como se ambos fossem cenários suficientes para a detecção da ordem de causalidade que os instituiu e da série de efeitos que deles pode ser deflagrada. O impacto do instante, não de raro revelado e conduzido por comportamentos e formas narrativas fixadas em enredos novelescos, gera, a um só tempo, aturdimento com o presente e expectativa com relação à próxima atração. Nossa percepção da passagem do tempo, por assim dizer, parece afetada tanto pela inoculação diária de espanto, quanto pela construção da expectativa do instante seguinte.
A divisão intelectual do trabalho presente no campo das Humanidades – tal como a inscrita nos demais – inibe a cooperação transdisciplinar, como bem sabemos. Em particular, a análise política ganharia  maior abrangência de perspectiva se incluísse em suas observações a dimensão do tempo histórico. Para além dos jogos imediatos e configuradores da trama momentânea da política, e da captura que exercem sobre nossas atenções e aflições, é importante lembrar que todo momento e toda conjuntura, ainda que possuam aspectos presentes que lhes são inerentes, constituem-se como pontos no tempo sobre os quais desabam efeitos provenientes do passado. Dito de outro modo, além da dimensão da espacialidade, por nós vivida como sensação não dotada de tempo, a experiência dos humanos é fortemente afetada pela presença do tempo e da duração. Nenhum momento, por mais dramático e encerrado em si mesmo, é vazio de história: não há, pois, evento desprovido de passado e de futuro. Este último é matéria de pura conjectura. Já o primeiro, trata-se de algo sobre o que podemos e devemos pensar, com base na memória e em conjuntos sistemáticos de perguntas.
Este longo exórdio pretende tão somente sugerir duas ordens de fatores, a meu juízo, constituintes da crise política vivida pelo país neste último ano. Temo que a “leitura” da crise, sem os marcadores que serão indicados, torne nosso exercício reflexivo refém de espantos e expectativas voláteis. Não se trata de deflagrar uma regressão ao infinito, mas de indicar duas tendências macro-políticas exponenciadas pela história política recente do país. Ambas podem ser designadas como formas de inversão que afetam o exercício da representação política no Brasil, a partir da década de 1980.
A primeira delas consiste na inversão das relações usuais entre campanhas eleitorais e exercício dos mandatos. A observação habitual da política baseia-se na suposição de que as campanhas são meios para a obtenção de mandatos – tanto executivos como legislativos. Pois bem, a inversão para a qual chamo a atenção tem a ver com o fato de que no processo eleitoral, tal como o vivemos desde a década de 1980, as campanhas ganham maior relevância em detrimento dos mandatos, e estes, por sua vez, apresentam-se como fator relevante e propiciatório para campanhas ulteriores.
A partir da década indicada, alguns fatores tornaram-se salientes: financiamento público da atividade partidária (Fundo Partidário), financiamento privado de campanhas (pessoas jurídicas e privadas) e forte financiamento ilegal das mesmas. O volume de recursos e a quantidade de “pessoal” envolvido - entre candidatos e “profissionais de apoio”-  configuram a presença de uma atividade econômica regular, mobilizada em bases permanentes, dado o calendário bienal das eleições brasileiras.  A sugestão que aqui deixo é a de que o fenômeno eleitoral brasileiro deve ser interpretado como “case” de Economia Política, e não mais como singela aplicação dos princípios representativos.
Outra ordem de inversão, também agravada a partir de década de 1980, mas com DNA proveniente dos tempos do regime militar, tem a ver com a progressiva construção de uma república fundada na representação dos representantes. Mais do que a distinção entre representantes e representados, como traço constitutivo da representação política, estabeleceu-se no Brasil um abismo entre os dois universos. As relações entre ambos são preenchidas por temporadas de captura de sufrágio, pelas quais partidos cartoriais, sem nexos regulares com o mundo extra parlamentar, buscam obter pela disputa eleitoral volume de votos suficiente para lhes garantir presença parlamentar e executiva. A representação, uma vez constituída, vincula-se a um modelo no qual o Poder Executivo exerce forte capacidade de atração. Um mandado parlamentar “bem sucedido” acaba por ser aquele no qual o representante se faz representar na esfera do Poder Executivo. O mecanismo configura, portanto, um modelo de representação dos representantes, em detrimento das expectativas tradicionais de que os representados constituem, afinal a base do sistema representativo.
Nas próximas duas colunas, tratarei de modo  mais particularizado de cada uma das inversões aqui indicadas. Fiquemos, por ora, com esta introdução.


 

sábado, 18 de junho de 2016

Introdução à lógica temerária


 Um dos últimos vazamentos de recente e copiosa delação premiada sustenta que o presidente interino teria estado envolvido em tenebrosa transação. O indigitado, além da costumeira afirmação de inocência, saiu-se com esta: se fosse verdadeira a acusação eu não poderia ocupar a presidência da república.

Nada de novo no padrão de reação indignada e na afirmação de inocência. Esse é o modelo que tem sido seguido por todos os citados. O que é de notar como fato inovador é o extraordinário uso da inferência lógica, na resposta interino-presidencial. Vejamos: em linguagem natural, o denunciado declara que caso fosse verdadeira a sua desonestidade, isso teria como implicação a impossibilidade do mesmo vir a ocupar a presidência. O que se segue, portanto, é o seguinte: se eu estou a ocupar a presidência, logo sou honesto.

O que equivale à seguinte inferência lógica:

1.     Se p é não honesto, logo p não pode vir a ser q (presidente);
2.     p é q (presidente);
3.     logo, p é honesto.

Um brilho de inferência. Digno de prêmio (ig)nobel, na categoria “falácias.”


Trata-se do truque de estabelecer o fundamento de uma inferência com base na conclusão do que ela mesma quer provar. Algo que os antigos céticos definiam como “dialelo”, ou raciocínio circular. Em outros termos, coisa para enrolar a malta. A inferência em questão bem vale, enfim, como introdução à lógica temerária. Tempos difíceis.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A biblioteca e seu mito de origem

A biblioteca e seu mito e origem
(versão integral de texto publicado no jornal O Globo, em 17/6/2016)

O principal programa ativo de cooperação cultural entre Portugal e Brasil foi lançado no Rio de Janeiro, no início de maio de 2016. Trata-se da Biblioteca Digital Luso-Brasileira, produto de um acordo de cooperação firmado em 2014 pelas Bibliotecas Nacionais de Portugal e do Brasil. A nova biblioteca revestiu-se à partida de forte dimensão simbólica: a origem da Biblioteca Nacional brasileira decorre, afinal, da magnífica Real Biblioteca portuguesa, trazida por ocasião da transferência do Estado português para cá, entre 1808 e 1821. É como se a Biblioteca brasileira retornasse a Portugal e, ao mesmo tempo, Portugal retomasse a transferência de seus acervos bibliográficos para o Brasil.
A Biblioteca Digital Luso-Brasileira, contudo, faz mais do que fundir as duas parceiras. Cada uma das duas instituições coordena em seus países redes importantes de acervos digitais, o RNOD (Registo Nacional de Objectos Digitais), em Portugal, e a Rede Memória Virtual Brasileira. Ambas as redes reúnem cerca de 60 instituições culturais: bibliotecas, arquivos e museus. A elas somam-se, ainda, a Torre do Tombo, em Portugal, e o Projeto Resgate Barão do Rio Branco (https://www.youtube.com/watch?v=AuCs5Nr5fBk), projeto sediado na Biblioteca Nacional brasileira voltado para a recolha de acervos digitais a respeito do Brasil em bases internacionais.
Nos últimos três anos, a Biblioteca Nacional brasileira, além de cuidar da infindável faina da recuperação patrimonial, por meio de obras e restauros e de exposições de seus acervos, tratou de expandir suas atividades digitais. Iniciada há dez anos, na gestão de Muniz Sodré, a BN Digital hoje abrange um conjunto significativo de acervos compartilhados, tais como a Brasiliana Fotográfica Digital, desenvolvida em parceria com o Instituto Moreira Salles, a World Digital Library, na qual participa do Comitê Executivo, ao lado das BNs da França, Alemanha, China e Qatar, além da Library of Congress (EUA) e da Biblioteca de Alexandria e o projeto e curso de uma Brasiliana Iconográfica Digital, em associação com a Pinacoteca de São Paulo, o Instituto Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles.
A retaguarda dessa política tem sido garantida pela qualidade dos acervos especiais da BN - Obras Raras, Música, Iconografia, Manuscritos, Cartografia – e das coleções de Obras Gerais e de Periódicos e Publicações Seriadas, além dos laboratórios de digitalização, preservação e restauro. A gestão desse conjunto, já há tempos, é reconhecida como modelar, a despeito da reiteração do mantra de que a instituição vive em permanente estado terminal.
Pôr a Biblioteca Nacional ao alcance dos brasileiros – e do público internacional – foi uma cláusula pétrea seguida pela direção da Biblioteca nesses últimos três anos. O direito à livre expressão cultural deve ser acompanhado de igual prerrogativa no que se refere à recepção e suplementação culturais. Com frequência, tendemos a associar política cultural à expressão cultural, fundada por vezes em marcadores identitários sempre rebarbativos e idênticos a si mesmos. Há que, contudo, suplementar tal expressão, tanto por meio da troca cultural como do acesso à cultura erudita e literária. Pôr a Biblioteca Nacional na vida dos brasileiros é, antes de tudo um ato de resistência à recessão cultural que nos acompanha, presente nos indicadores vergonhosos de leitura e de alfabetização plena.
A Biblioteca Nacional não pertence a governos, por definição temporários. Sua sustentabilidade ao longo do tempo exige, por certo, atenção governamental. Mas requer sobretudo que se leve a sério o fato de que é uma instituição permanente do Estado brasileiro. Não pode, pois, ficar a depender de políticas de governo e, sobretudo, vulnerável à indiferença burocrática crônica.
Este é um país que, por acidente feliz, recebeu em 1808 uma grande biblioteca europeia e decidiu mantê-la em 1825, como item do Estado nacional que então se criava. Retenhamos esse belo mito de origem. Mitos tanto podem servir para fixar tradições, quanto para obrigar a pensar se estamos à altura daquilo que proporcionam. Que o laço reestabelecido com a Biblioteca Nacional portuguesa dê força e sobrevida à percepção do quanto nossa integridade civilizatória e força reflexiva dependem de instituições como a Biblioteca Nacional do povo brasileiro.

Renato Lessa
Presidente da Biblioteca Nacional

(Abril de 2013/Maio de 2016)


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A cidade e a biblioteca

(Texto de introdução ao catálogo "Rio de Janeiro 450 anos: uma história do futuro", alusivo à exposição de mesmo nome, aberta à visitação na Biblioteca Nacional, até novembro de 2015). 

A cidade do Rio de Janeiro completa, no ano de 2015, quatro séculos e meio. O que isto quer dizer? Pode a constatação contábil do depósito do tempo linear elucidar algo do significado da vida de uma cidade? Mais do que indagarmos a respeito do acúmulo de tempo e de coisas que configurou o presente, pode ser oportuno imaginar outra ordem de inquietação. Com efeito, quantas cidades incompletas se insinuaram e feneceram naquela, para os padrões locais, longa duração? Uma cidade incompleta pode bem ser uma urbe que não veio a existir, urdida e desejada, mas não fixada na experiência comum. Pode ser, ao contrário, – e o é com imensa frequência – uma cidade realmente existente, porém sem espírito; incipiente nos limites da sua materialidade: sem metafísica, filha da força dos fatos, da astúcia, do cimento armado, da velocidade e do vergalhão.

De que cidade, afinal, estamos a falar? Pergunta, para já não respondida, que se deseja fixar na experiência do espectador da exposição Rio de Janeiro 450 anos: uma história do futuro, registrada neste catálogo. Que ela acompanhe o leitor e o visitante que, ainda que tocados pela beleza e pela pungência do que aqui se verá, se dispuserem a refletir sobre o que somos, seremos e deixamos de ser.

Exibir imagens e registros do Rio de Janeiro, tal como o faz este catálogo, é algo que evoca a intuição do poeta T. S. Eliot, em uma de suas obras primas, o poema Burnt Norton: “Se todo tempo é eternamente presente/Todo tempo é eternamente passado/Todo tempo é irredimível./O que poderia ter sido é uma distração/Que permanece, perpétua possibilidade,/Num mundo apenas de especulação”. Quantos futuros possíveis estão contidos na experiência do presente? É impossível imaginar a história desta cidade sem o salto distraído no espaço vazio da especulação. Cidade de possibilidades suprimidas, de futuros precocemente desfeitos: não foi assim com sua Avenida Central, condenada a uma reedição do bota-abaixo que lhe deu origem, poucas décadas após sua inauguração, em 1906?

As imagens que aqui estão são o que são: fixam, sem dúvida, instantes pretéritos, pontos de partida do que veio-a-ser. Podem, no entanto, ser tomadas como objetos-de-tempo-e-lugar nos quais incontáveis protótipos do que não-veio-a-ser encontravam sua morada, na deslocada e pudica latência das coisas que não passam ao ato. Olhar e rever estas imagens não evoca simplesmente o passado deste aqui e agora; deste presente no qual mantemos os pés no chão e nossos olhos a exercer seu inquérito visual. Mais do que isso, trata-se de intuir e reinstituir a vigência imaginária de uma variedade de presentes passados, portadores de futuros possíveis que não vieram a ser.

Quem poderá dizer que a ausência de tais futuros, e a saudade do que não foram, não está aqui inscrita na matéria do que veio a ser, presente na composição do olho que agora os revê? O olho que vê é um órgão da tradição, tal como asseverou Franz Boas. Quanto dessa tradição, desse aprendizado tácito e irreflexivo de olhar as coisas, não deriva do sentimento de falta do que não veio a ser? Uma cidade, como uma vida, resulta também do que lhe foi extraído como possibilidade. É de admitir, ainda a presença invencível da estranha dialética – ou enigma, o que dá no mesmo - que faz com que efeitos propiciatórios emerjam dos próprios atos dizimação.

Trata-se aqui de repor o passado no futuro. Henri Bergson, que dedicou seus melhores esforços para lidar com os temas do tempo e da duração, bem autoriza a pretensão aqui anunciada. Em sua obra L’Énergie Spirituelle, de 1919,  sugeriu que sem a sobrevivência do passado no presente, não haveria a sensação psicológica da duração, mas tão somente “instantaneidade”. Há, contudo, modos distintos de duração. Pode-se, por exemplo, trazer o passado como forma de apresentação das circunstâncias que explicam o futuro. Não é o que aqui se sugere, mesmo porque nada é explicado, mas tão somente mostrado. Mais apropriado do que exigir que o passado explique o futuro, caberia interpelar a este último sobre os modos pelos quais lidou com o primeiro.

Em termos mais diretos, o que se sugere é que reflitamos sobre os efeitos do presente sobre o passado, e não nos limitemos à chave fácil de buscar a elucidação das coisas pela reconstituição linear da série temporal. O antes nem sempre explica o depois; é este que, se calhar, nos deve a apresentação das justificativas pelo que veio a ser. Trata-se de pensar o futuro, ao mesmo tempo, como decorrência do que ocorreu e daquilo que não veio a ocorrer. O sentimento de duração pode bem abrigar uma sombra, alucinatoriamente preenchida pelo que poderia ter sido.

Que lugar pode abrigar os materiais para esta especulação, para esta crono-ludo-terapia, senão uma biblioteca, ou melhor, a biblioteca da cidade, cujo passado é uma coleção de futuros possíveis? A decisão da Biblioteca Nacional em integrar o conjunto de iniciativas culturais em torno da efeméride dos 450 anos do Rio de Janeiro partiu do reconhecimento da interdependência histórica estabelecida com sua cidade de abrigo. Desde a sua criação em 1810, a Biblioteca Nacional acumula dois traços que lhe são indeléveis: instituição permanente do Estado e do povo brasileiros; instituição fixada na vida da cidade do Rio de Janeiro. É este último aspecto que, neste momento, deve ser ressaltado: como imaginar a história da Biblioteca Nacional, sem incorporar em suas identidades básicas a presença da cidade que a contém? Ao mesmo tempo, como pensar a cidade, sua memória e seus futuros possíveis, sem o que aqui se guarda? Tal ordem de questões esteve presente na escolha do recorte adotado: mostrar o Rio de Janeiro na – ou da - Biblioteca Nacional. E como os atos de mostrar nunca são inocentes, sobretudo quando lidam com o tempo, a exibição de fragmentos do que foi esta cidade trás consigo o convite a imaginar como poderia ter sido e como será.

Uma exposição a respeito da cidade não deixa de ser uma forma de intervenção. Esta se dá pela possibilidade de reflexão sobre a experiência de estar nesta cidade. Por mais locais que sejamos, compartilhamos um dos mitos brasileiros básicos, qual seja o de que o futuro arranca do presente de modo fáustico, sem qualquer dívida ou vínculo com o passado. Em nossa obsessão pelo futuro, somos imparáveis cronocidas. Não é difícil encontrar na história da cidade evidências compatíveis com tal inclinação: construímos, destruímos, apagamos, acrescentamos. A cidade, tal como a exposição o indica, é uma obra aberta, pela qual pulsões de vida e de destruição andam ao par. Nela nunca teremos a sensação das cidades prontas.

No entanto, uma cidade é sempre um abismo para dentro de si. Por mais que a ela se somem novas dimensões, é da natureza dos atos de suplementação acrescentar complexidade à vida, já que percorrem simultaneamente direções distintas e de complementaridade tensa. Com efeito, a principal intervenção contemporânea no desenho da cidade do Rio de Janeiro é orientada por uma perspectiva de restauração: com a demolição da Avenida Perimetral, devolvemos à cidade o direito de ver o mar; reintroduzimos os bondes no Centro da cidade. Parte da cidade se reinventa a partir de um desejo de recuperação do que se perdeu. Possibilidades dissipadas são recuperadas e, dessa forma, uma certa atração pelo passado – pela intuição de que em vários aspectos já estivemos em melhor situação – molda os desenhos de futuro. Somos seduzidos pelas escavações, pela sede de ver as entranhas de uma terra de idade remota, nas quais, se calhar, estão guardadas verdades e segredos dos quais nem os nomes sabemos. Olhar para as fendas do chão e sobre elas exercer as artes de um voyeurismo arqueológico. Aceder a um mundo de pedras justapostas por óleo de baleia e adivinhar os que por ali deambularam.

Uma cidade aberta em exumação, que a exige como passo necessário para o futuro. Adoramos o futuro, por certo, mas quando pensamos no que somos como sujeitos desta urbe, escavamos, abrimos buracos e dirigimos ao centro da terra perguntas cruciais que todos nos fazemos: quem somos? Quem, ou o que, fez com que sejamos o que somos? O que fazer com isso?

Uma cidade que, apesar de cronocida e devoradora precoce dos seus artifícios, exige a vigência do passado como sua plataforma de lançamento para o futuro. Em breve, saberemos praticar as artes do desaterro, teremos mares e lagoas de volta, veremos saltar aos nossos olhos o Saco de São Diogo, a Praia do Alferes, a Ponta do Calabouço. Quem sabe, acharemos o corpo de Dana de Teffé, um dos maiores mistérios da história da cidade e preocupação do grande imortal carioca Carlos Heitor Cony[1]. Porque não imaginar, ainda, a arte da remontagem de morros arrasados?

Cidade voltada para o centro da terra. Outras exigem o ar e as altitudes. Há, ainda, as fixadas em desertos, em pura matéria inorgânica. Aqui, não deixamos de ser cativos de uma vocação telúrica, de um desejo de extração orgânica do sentido entranhado em camadas tectônicas. Cavamos túneis, mexemos com a terra, arrasamos morros, soterramos o mar. Cidade de terra movediça, inimiga da imobilidade, da permanência. Quando descobrimos nossos vestígios soterrados, tornamo-nos doces e rememoriados. Sobrevém-nos a tristeza e o enternecimento típicos dos que se lembram de suas infâncias.


Escavar mais, descobrir mundos que por aqui circularam, orientar a escuta para a incontável coleção dos possíveis, fixada nos instantâneos aqui selecionados, para tentar responder às perguntas com as quais abrimos este texto. Especular sobre o que seremos e sobre o que poderíamos ter sido. Quanto da intuição exercida no modo gramatical do futuro do presente depende do exercício imaginário aberto pelo modo gramatical do futuro do pretérito? A experiência com o mundo é feita de matéria de memória – expressão que é título de um belo livro de Carlos Heitor Cony, já aqui  evocado. Memória do que aconteceu; memória daquilo a que não foi dado acontecer.

Quantas cidades, enfim, existem nesta cidade? Quantas arqueologias nela são possíveis? Não dá para ter contagem, nem sequer aproximada, dessas cidades. Sabemo-las existentes, contudo, pelos sinais finamente guardados na grande biblioteca do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional.

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A exposição Rio 450 anos: uma história do futuro contou com a curadoria e coordenação do poeta e acadêmico Marco Lucchesi. Curadoria compartilhada com o trabalho dedicado das responsáveis pelas chefias das Divisões de Coleções Especiais da Biblioteca Nacional, a saber: Maria José Fernandes, Acervo Especial; Maria Dulce de Faria, Cartografia; Léia Pereira e Monica Carneiro, Iconografia; Vera Faillace, Manuscritos; Ana Virgínia Pinheiro, Obras Raras; Elizete Higino, Música e Carla Chianello Ramos, Periódicos.


Rio de Janeiro, junho de 2015



                                                                                     



[1]. Dana Fitscherova, judia tcheca, foi casada com o Embaixador Manuel de Teffé, de quem adquiriu o sobrenome que lhe daria triste fama. Em 1961 desapareceu, em meio a uma viagem entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Nunca mais se soube dela, viva ou morta. Foi um dos casos mais rumorosos da crônica criminal carioca dos anos 1960

Brasil: matéria de crítica, interpretação e fabricação de mundos
(Sumário de conferência a ser proferida na Academia Brasileira de Letras, no dia 25/8/2015, às 17:30, com entrada franca) 
Uma das vertentes mais instigantes da filosofia do século passado foi desenvolvida por Nelson Goodman, inspirado em intuições e argumentos de gênios tais como Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein. A mais célebre tese de
Goodman sustenta que somos – os humanos – fabricantes de mundos, através da invenção e manipulação de símbolos. A forma de vida dos humanos radica, de modo inapelável, em sua incessante faina de elaboração simbólica. Não se trata, apenas, de inventar mundos imaginários. A própria vida prática, com suas implicações materiais, decorre de atos de fabricação de mundos.
A intuição de Goodman vale tanto para as biografias individuais, quando para experiências coletivas. Quero crer que possa ser, mesmo, aplicada a histórias nacionais.
Na conferência, pretendo revisitar alguns dos mais imaginativos esforços de interpretação do Brasil, indicando os efeitos de “invenção de mundos” presentes em cada um dos atos interpretativos. O objeto interpretado não resiste a sua interpretação. É, antes, um efeito da própria ação cognitiva que procura explicá-lo. Essa intangibilidade dos objetos, em sua solidão objetiva e exterior, é, de modo inevitável, assaltada pelas artes da elaboração simbólica. Delas resultam formas de ação no mundo, por meio das quais a imaginação se faz decantar, tanto na configuração das coisas como na do olho e do espírito que as percebem. A um só tempo, no sentido e no sentimento do mundo, em chave drummondiana.
A intenção é a de considerar obras tão díspares quanto ímpares, criadas por autores tais como Sylvio Romero (Brasil Social), Gilberto Freyre (Interpretação do Brasil), Sergio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil), Mario de Andrade (O movimento modernista), Oliveira Vianna (Instituições Políticas Brasileiras), Raymundo Faoro (Os Donos do Poder), Álvaro Vieira Pinto (Ideologia do Desenvolvimento) e Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro).
O que fazer com conjunto tão heteróclito?
Menos do que descrever com minúcias as visões ali apresentadas, importa detectar a perspectiva épica presente nos esforços de interpretação da experiência do Brasil como país. A série, sem dúvida, poderia ser estendida; há lacunas imperdoáveis, mas não parece haver presenças injustificadas. A ideia de “perspectiva épica” decorre de uma fina expressão, do filósofo politico norte-americano Sheldon Wolin, crítico da infestação positivista e cientificista que assolou os estudos políticos acadêmicos, a partir dos anos 1950. Wolin chamava a atenção para a importância de uma teoria política épica, como reserva de sentido para a investigação dos objetos políticos postos no mundo.
A suposição, a ser desenvolvida na conferência, é a de que a história intelectual brasileira – em particular em seu nicho dedicado à crítica social – encerra em si mesma episódios de natureza épica, a partir dos quais imagens de país e paradigmas de ação política e social são introduzidas na vida ordinária. Os grandes paradigmas de interpretação são aqueles que dão forma à experiência da vida.
Este último ponto é importante: não se trata de  esforços de imaginação que nos indiquem o caminho para as nuvens, para fora do mundo. Ao contrário, eles trazem-nos para o mundo: são modos de suplementação da experiência. Como tal, são instituidores de sentidos dotados de implicações de natureza prática. Parte não desprezível da resposta à pergunta clássica de Jean-Jacques Rousseau – o que faz de um povo um povo? – está contida nos atos simbólicos de invenção de experiências compartilhadas. A outra parte tem a ver com o acaso, mas este, por definição, está fora da linguagem e desaba sobre nós com a força invencível daquilo que não se faz antecipar pela imaginação.